A invenção do brioche: uma reflexão sobre artesanato e empreendedorismo

 

artesanato e empreendedorismo

O dia amanheceu nublado naquele 23 de outubro de 1537, a cidade coberta por uma névoa deixava entrever apenas as silhuetas das construções, Jean Gauche já havia acrescentado lenha ao forno onde logo assaria seus pães, pela chaminé a fumaça branca fundia-se a nevoa adensando-a ainda mais, envolvendo em um abraço leitoso o alvorecer daquele dia. 

Um aroma adocicado impregnava o ambiente da rustica cozinha, a infusão de flores e folhas seletivamente colhidas na tarde anterior no bosque que circundava a pequena vila aquecia um pouco a gélida manhã.  

Jean Gauche lamentava-se por não ter encontrado os oches, espécie de figos muito comuns na região, a população costumava saboreá-los recheados com queijo brie no desjejum, o contraste entre o doce e o salgado conferia um paladar único à iguaria, mas naquela manhã estes lhe faltaram. 

Enquanto apreciava o chá o olhar do homem percorria a massa de pão recém-sovada, havia acrescentado leite, ovos e uma dose extra de manteiga, o fermento agia fazendo-a crescer, Jean Gauche preparava-se para modelar os pães quando uma ideia lhe acometeu. 

Na falta dos figos daria aos pães o mesmo formato, recheá-los-ia com o queijo brie e para uma cor distinta e aproximada, pincelaria com gemas de ovos a camada superior; E assim o fez.  

Logo a primeira fornada dos pães em formato de oche saiam fumegando do forno chamando a atenção dos transeuntes que por ali começavam a passar. 

O padre Anton Brechy aproximou-se, provou um pão e exclamou: Isto é uma obra de arte! 

Jean Gauche responde com simplicidade: Não padre, são meros pães artesanais. 

̶  Mas dignos da nobreza, retrucou o padre com um sorriso na face.

A pequena ficção com a qual início este texto apresenta em seu epílogo a difícil e por vezes imprecisa digressão entre os termos arte e artesanato, análogos a um terceiro que surge com a Modernidade e consolida-se no período imediatamente posterior, o design.

Com o surgimento do design e sua aproximação com a arte restou ao artesanato a marginalidade, ou seja, enquanto os dois primeiros surfavam a crista da onda da modernidade e a ascensão do consumo, o terceiro era subjugado a uma atividade menor e arcaica.

Contemporaneamente, no entanto, o artesanal ganha status de qualidade e por que não, exclusividade. A produção industrial, em função de seus próprios requerimentos, cria supérfluos adornados e obsolescência programada; O artesanato cria distinção e valor regional, carrega em si a mão do artesão, suas narrativas e experiências impressas pela técnica no produto final.

Carecemos de artesanato na escola, no trabalho, no dia a dia, na materialização dos desejos e na realização dos ensejos. Ser artesão é ser autossuficiente, é transformar o barro em figura, a palha em balaio, a pedra em ponta de lança.

Empreender é fazer. O fazer requer conhecimento e habilidade daquele que faz. O produto resultante é artesanal. Sejamos empreendedores, artesões contemporâneos das histórias de nossa autoria ao invés de figurarmos no texto alheio.

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