Tijolos não ensinam

anderson_4Costumo começar a primeira aula das várias disciplinas as quais ministro no ensino superior com uma indagação ao alunos. – Por que escolheram esta universidade para cursar?

A resposta é invariavelmente a mesma a cada novo semestre letivo: “Pela infraestrutura ofertada, professor!”

Pergunto então quantos ali procuraram saber quem seriam seus professores, e se o fizeram, se averiguaram na internet para saber mais sobre os mesmos.

Novamente em uníssono a classe responde:”Não”.

Proponho então uma breve experiência, saio da sala por alguns minutos deixando-os a sós. Quando retorno, pergunto o quão produtivo havia sido aquele momento, o que fizeram e o que eles aprenderam enquanto eu estava fora.

Em geral eles se entreolham e não sabem responder.

– Ótimo! Creio que agora ficará um pouco mais claro o pensamento que pretendo compartilhar com vocês: as paredes não ensinam.

A escola é construída e constituída por professores, somam-se a estes nesta edificação os alunos, e prestam-se como instrumentos os espaços arquitetônicos e a disponibilidade ferramental.

Um bom professor conduz uma excelente aula seja ela sob uma árvore em campo aberto ou na circunscrição de uma sala. Um bom professor provê o desenvolvimento dos processos de aprendizagem seja por meio da voz, do quadro negro riscado a giz e do branco com seus marcadores multicoloridos, ou mesmo com o auxílio de uma projeção digital de um punhado de slides cheios de efeitos encantadores.

Não é o instrumento ou a infraestrutura o determinante, é a capacidade didática inscrita na articulação do pensamento, aqueles oriundos das ciências em relação aos que emergem das cabeças que desta experiência de ensino partilham, professores e alunos.

Não significa que devamos implodir os prédios escolares por sua inópia função, mas sobretudo de entendermos suas reais dimensões, a de abrigo, instrumento de auxílio e assistência às atividades docentes e discentes.

A constituição cultural que valoriza mais as paredes que as pessoas está entre as principais causas da precarização da atividade docente; se os tijolos que jazem estáticos, empilhados ordenadamente uns sobre os outros são mais valorizados que o professor, o que esperar destes se não a reprodução perene de novos muros.

Tijolos não ensinam e a sua proliferação apaga os horizontes.

 

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